A3 Dossiê: Expedição percorre rio e comunidades afetadas por barragem – Notícias UFJF

:: UFJF em 05/02/2019 21:22 ::

Por Raul Mourão

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Intenção da expedição é coletar amostras de água, avaliar mudanças nos cursos d’água e ouvir as pessoas atingidas (Foto: Maria Otávia Rezende)

“Foi uma bola de boliche bem jogada”, resume o comerciante Manoel Braga, em referência à tragédia em Brumadinho.

O rio e as cidades no caminho da lama são a pista de arremesso. As pessoas e os animais como pinos em um strike trágico que levou a vida de ao menos 134 indivíduos. Mais 199 estão desaparecidos, conforme levantamento do Corpo de Bombeiros, divulgado na segunda, 4. E outros milhares foram afetados pelo rompimento.

Natural de Brumadinho, Manoel viu reduzir, na semana passada, 70% da clientela do bar, localizado em uma comunidade rural, onde mora, às margens do Paraopeba, na divisa de Curvelo e Pompéu, a cerca de 200 quilômetros de Brumadinho. “Paguei R$ 3.900 neste freezer, no mês passado, para usar nas vendas de carnaval. Não sei como vai ser. Temos que esperar, porque a recomendação é de não usarmos a água do rio”, conta Manoel, que perdeu um amigo na tragédia.

Os pesquisadores percorrerão, em três dias, mais de mil quilômetros desde a proximidade da foz do rio Paraopeba, em Felixlândia, até trechos antes do rompimento da barragem em Brumadinho

O depoimento do comerciante é uma das histórias ouvidas pelo grupo de professores e estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), da Universidade Estadual de Goiás e do Instituto Federal do Norte de Minas que entram, nesta terça, 5, no segundo dia de expedição. Os pesquisadores percorrerão, em três dias, mais de mil quilômetros desde a proximidade da foz do rio Paraopeba, em Felixlândia, até trechos antes do rompimento da barragem em Brumadinho.

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Equipe de professores e alunos em Curvelo, uma das primeiras paradas no trajeto de mil quilômetros a ser percorrido pela expedição

Um dos objetivos da expedição é verificar os danos socioambientais causados pelo rompimento da Barragem I da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, onde estavam depositados 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. Até a manhã desta terça, já foram coletadas seis amostras de água em quatro locais visitados.

Os trabalhos são os primeiros em campo da rede de pesquisadores, formada na UFJF, na última semana, para entender a tragédia e propor soluções em diversas frentes de atuação. A expedição se desenvolve em dois eixos simultâneos: “Investigação preliminar de danos ambientais” e “A voz dos invisíveis”. Após o fim do percurso, será desenvolvido um terceiro eixo com os laudos.

Coleta e danos

A análise independente de afluentes e de outros mananciais é um dos diferenciais deste trabalho de campo

Na primeira frente, são ao menos oito municípios visitados para coleta de água e sedimentos do rio Paraopeba, de seus afluentes e outros mananciais utilizados pela população, como poços artesianos. O professor do Departamento de Geociências da UFJF Miguel Felippe explica que a coleta não se restringe ao Paraopeba – principal curso d’água atingido – porque os rejeitos podem se infiltrar no solo, chegando a lençóis freáticos em contato com poços, por exemplo, ou serem levados do Paraopeba para seus afluentes, em refluxo, seja pela diferença de força entre as águas ou cheia do rio. A análise independente de afluentes e de outros mananciais é um dos diferenciais deste trabalho de campo.

A primeira coleta de poço foi realizada na casa do síndico de um condomínio rural, Rui Corrêa Nunes, localizado logo após a Usina Hidrelétrica Retiro Baixo, em Felixlândia. O material será levado para conclusão das análises em laboratório na UFJF. Nesse ponto do rio Paraopeba, não há sinais visíveis da chegada de rejeitos. No entanto, a população mostra-se temerosa, pois há previsão de chegada até o próximo dia 10. “Neste domingo, rancheiros vieram se despedir do rio”, conta Rui.

Águas turvas

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Nível de água no Paraopeba baixou próximo à usina em Curvelo

No próprio campo de coleta, está sendo possível atestar o nível de turbidez da água utilizando o aparelho chamado turbidímetro. Conforme o professor Miguel Felippe, o tom turvo pode indicar presença de argila e outros sedimentos. A análise laboratorial indicará a composição do material e a comparação com os elementos de rejeitos de mineração.

Na amostra recolhida na zona rural do município de Papagaios, a cerca de 140 quilômetros de Brumadinho, o nível foi de 30,8 e 31,6 unidades de turbidez (ntu). O resultado é considerado bom, uma vez que, em curso natural de água, são aceitos para usos primários em torno de 100 ntu. Conforme Miguel Felippe, já foram divulgados índices de 2 mil ntu e até de 60 mil ntu em áreas atingidas pelo rompimento.

A verificação preliminar de danos ambientais é feita já no local por meio de um protocolo de avaliação rápida (matriz de Leopold). As alunas de Geografia Isabel Martins e de Ciências Biológicas Gabriela Barreto, supervisionadas por Felippe, verificam, entre outros pontos, a existência de aterramento no leito do rio, alterações de uso da terra e do curso d’água.

Voz dos invisíveis

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Missão vai além da abordagem ambientação, e moradores da região estão sendo ouvidos (Foto: Maria Otávia Rezende)

No segundo eixo, pesquisadores verificam como comunidades foram ou poderão ser afetadas no modo de vida socioeconômico. O foco são aquelas que não recebem tanta atenção dos poderes público e privado ou da mídia.

O grupo quer ouvir os medos e os anseios dessas comunidades, dando voz a elas. Têm como fundamento a pouca atenção recebida por vilas que ficavam entre as três principais atingidas pela barragem do Fundão, em Mariana, em 2015 – Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e Barra Longa. “Era como se entre essas três não existisse mais nada”, lembra o professor de Geografia Alfredo Costa, do Instituto Federal – Norte de Minas.

O aluno de pós-doutorado em Geografia da UFJF Ricardo Fernandes, professor da Universidade Estadual de Goiás, também esteve em Mariana, em 2015, três dias após o rompimento. Integrante do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração, Fernandes começa a ouvir novamente relatos semelhantes da tragédia ocorrida há três anos.

Contraprovas

Na terceira frente de trabalho, a equipe levará para laboratórios da UFJF as amostras de água e sedimentos para serem analisadas. O objetivo é verificar se há a presença de metais pesados e outros componentes que podem causar danos à saúde e ao ambiente. A partir dos resultados, serão elaborados laudos e orientações técnicas. A expectativa é que os relatórios sejam divulgados entre sete e dez dias após a entrega nos laboratórios.

A equipe da Diretoria de Imagem Institucional acompanha os trabalhos dos professores e alunas na estrada. Veja a cobertura também no perfil da UFJF no Instagram: @ufjf

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“A questão não é discutir se vai romper outra barragem no futuro ou não. A questão é quando.” Desde o rompimento da barragem de Fundão, o pesquisador Miguel Fernandes Felippe alega que a comunidade acadêmica já sabia que era uma questão de tempo até acontecer algo parecido em outro local de risco.

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